terça-feira, 4 de junho de 2013

Não há Dicas para Namorar e Casar!?

Nunca me ensinaram as coisas realmente úteis: como é que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se é preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel também. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodução, sobre o prazer e a sedução, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como é que eu faço?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e não encontrei uma única obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobiótica, descobrir o «ponto G» da minha companheira para ajudá-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aquário, criar míscaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um «dépliant». Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva não faço a mais pequena ideia.

Porque é que o Ministério da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascistóide dos Descobrimentos) e anúncios ridículos (como aqueles «Ya meu, numa boa!» do Cartão Jovem), não edita um bom folheto sobre o Casamento? A gente dispensa a doutrina da Igreja sobre o assunto, as opiniões de Alberoni e até as máximas de D. Francisco Manuel de Mello. Bastava um livro técnico, com indicações precisas. Por exemplo, listas de joalheiros, preços de anéis, vantagens dos lençóis de linho, a legislação em vigor, boas frases para fazer a proposta («Se não te importas, casa comigo»), como é que se vai vestido, onde é que se aluga a vestimenta, como é que se consegue reservar aquela capela linda que se viu um dia em Sintra, quantos padrinhos é que se pode ter, «et caetera».

Mas nem tudo é negrume. Portugal já recomeçou a namorar. Com um bocadinho de tempo e de paciência, não tarda que reaprenda a casar. Se as pessoas querem viver umas com as outras, óptimo. Mas se querem casar deviam casar o casamento pesado, «heavy metal», comprometidíssimo, com comunhão de bens, prestações de electrodomésticos (de preferência difíceis de pagar), filhos, sogros, problemas com os pedreiros e a clara ameaça de não poder ser enterrado em terra sagrada em caso de adultério. Senão mais vale, simplesmente, pecar.

Enquanto Portugal não retoma o gosto de casar, pode ir experimentando, alegremente, cheio de problemas e de medo, mas nas tintas para isso tudo; pode ir cambaleando, de anel no dedo, preso, aprisionado e absolutamente apaixonado, «a-noivar».

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'